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10 de abril de 2010

Quero esquecer, não consigo.

               A memória é um grande carrasco. Pode-se mudar de lugar, andar por novos ares, encontrar desconhecidos atalhos, buscar outro tom, ouvir nenhum som, encapar a recordação, refazer o contrafeito, apurar o insolúvel, mas nada funciona como uma borracha invisível quando a lembrança tem uma força visceral.
               A capacidade que há em reter ideias e impressões, em lembrar exatamente sem rever, em ouvir perfeitamente quando já não se fala, em sentir o sabor quando não há mais o perfume, em reviver um fato passado como se estivesse acabado de acontecer é terrivelmente doloroso, quando se faz um esforço tremendo para esquecer.
               O mais fácil seria deixar para lá, seguir adiante sem olhar para trás e virar uma estátua de sal. Melhor seria entender que os contratempos fazem parte da vida de todo mundo e encarar com sublime naturalidade o que é imponderável.
               A mesma ofensa que significa um peteleco para uns, é capaz de exercer, sem exagero, um efeito devastador. Brincar com fogo pode queimar, mas, sem demasia, uma faísca chega a provocar mágoas incalculáveis. Existem aqueles que têm o dom de tirar de letra uma dor que insiste em doer, enquanto outros precisam de um dicionário inteiro de resignação.
                O fato é que há coisas que, uma vida inteira, não traz nelas o benefício do esquecimento. A separação de quem mais se ama, é um exemplo que queria tirar do calendário. Sem pé, impossível deixar pra lá, ainda, acusação cruel e injusta, seguida do silêncio político apartidário dos meus, que deixa o acusado em total desamparo e abandono.
               Para escapar das lembranças que me assolavam, mudei de endereço. Sobrevivência, solidão e fuga, significaram autossuficiência, independência e conquista material. Aprendi mutilado que a objetividade simplifica e difere de quem está arrebatado pela dor. Ainda hoje, diante disso, esvaziar a memória é exigir muito, quando pouco sobrou.
               Uma tragédia, em seguida, bateu a minha porta. Solidariedade e humanismo fizeram que meu coração, a partir de então, batesse fora do meu peito. Descobri, com a desesperança que, duradouro e frágil, não são antagônicos, mas irmãos gêmeos. Isso não sai do meu pensamento nem um minuto sequer.
               Em instantes fico logo amigo de infância, ainda mais quando se trata de amizades com mais de vinte anos. Uma desapareceu sem noticiar, outra me deletou aos poucos. As explicações vieram mais tarde: a primeira era concorrente sem existir o jogo, a segunda apenas pensou no seu interesse pessoal imediato. Preferia que ”A Rita”, de Chico Buarque quando diz “que levou os meus vinte anos”, não estivesse na minha trilha sonora.
               Se a Educação é uma aventura, os bastidores dela é uma saga.  Mais de dez anos no meu principal trabalho, certo reconhecimento material e simbólico transformou-se em emprego compulsório. Minha saída teve que ser litigiosa, como um divórcio, onde um traia enquanto outro ainda amava.
               A calúnia, injúria e difamação feita por pares no exercício do meu ofício, que sou tão cuidadoso, são difíceis quando se tem que processar. Não sou refém da atração exercida pelo poder, da vaidade ou insegurança do outro e muito menos de mais pratinhas no fim do mês. A fórmula do esquecimento disso eu procuro, incessantemente, mas desconheço.
               Responsável quando recebe notificação, acusa o professor de causar constrangimento. Outra pérola é quando um descontente com o resultado do aluno declara que “História é perfumaria”. Como levar isso na flauta? Só com uma orquestra inteira, quem sabe.
               Esbarrei com pessoa movida apenas pela utilidade e que descarta em seguida. Presenciei pequenos golpes em pessoa que não tinha má fé. Assisti superego inflado. Deparei com a exigência de discipulado. Sem lente de aumento vi o respeito sendo desrespeitado. Observei a dificuldade que há em aceitar o direito individual e legítimo de pensar diferente. Hoje sei lidar, cada vez melhor, com isso. Contei com a experiência que é uma professora exigente.
               O tempo precisa de tempo e resolve tudo, diz um ditado popular. Juro que faço das tripas o coração para esquecer as lembranças que aprisionam. Caso um dia consiga, prometo excluir essa postagem.

6 comentários:

Macaco Pipi disse...

xonadão!!

O Leão da Montanha disse...

Um dia consiguirá. Além de todas as coisas que te entristecem, veja o significado da sua profissão e de como ela pode mudar os seus alunos e o mundo. Não enxergue os seus caminhos como um grão de areia, mas como o brilho do universo. As vezes não podemos entender como as pessoas nos decepcionam; é como elas simplesmente não se importassem pelo tempo da amizade e do que passamos juntos, mas veja os verdadeiros amigos. Na vida existem as pessoas verdadeiras, as interesseiras, os falsos e os icógnitos. Veja os lados bons e fique em alerta para não ser machucado outra vez.


Abraços, meu querido amigo, e fique com Deus

Calcanhar de Aquiles disse...

Meu ex-aluno ainda pequeno Thestay, hoje amigo, acertou meu calcanhar. Isso já faz ter valido à pena.

christiane disse...

Sabia que você era ímpar, não pela ausência de pares, mas pela valiosidade da alma. Mas supera minhas expectativas sempre.
Muitos beijos!

christiane disse...

Agora me pegom refletindo: valiosidade existe? Se não, acabei de criar...
Só quem tem valor entende...

Ronaldo disse...

Lindo texto! Estremamente poético... Já pensou em escrever poesia? Para mim, essa é a mais sublime das artes, a mais perfeita, pois saber trabalhar palavras artisticamente é um dom que muitos almejam, mas que poucos conseguem, e você tem esse dom. Parabéns!